É inegável que as pandemias representam uma ameaça à saúde pública e o ano de 2020 marcou um momento histórico que será sempre estudado e recordado, provando que o mundo não estava preparado para múltiplas alterações provocadas pelo impacto de uma pandemia como a COVID-19.

Nesse sentido, para além das condições patológicas específicas causadas pela COVID19, é importante considerar dentro desse contexto as condições de saúde mental da população. Uma investigação recente realizada em Portugal constatou que 49,2% dos participantes nesse estudo avaliaram o impacto psicológico da situação como moderado-severo, 11,7% relataram sintomas depressivos moderados a graves, 16,9% sintomas de ansiedade moderados a graves e 29,2% níveis de stresse moderados a graves. Preocupações semelhantes no quadro de saúde mental da população no âmbito mundial foram observadas noutros países, nomeadamente numa investigação realizada na China durante o surto inicial da COVID-19.

Considerando estes resultados, emerge uma atenção especial aos indicadores psicológicos decorrentes do momento atual que o mundo enfrenta, enfatizando sobretudo a necessidade pela busca de um olhar especializado, no sentido de melhor preservar a saúde psíquica. Isso implica reconhecer que perante este conjunto de situações adversas e potencialmente traumáticas, o stresse pode manifestar-se sob a forma de um sofrimento psicológico dominante. Nestes casos, os indivíduos podem recorrer a mecanismos de defesa como a dissociação e a amnésia que, consequentemente, remete para uma capacidade reduzida de aprender novas informações. Intensas reações emocionais e comportamentais como irritabilidade, insónias ou hipervigilância podem manifestar-se enquanto resposta exagerada a eventos normais do quotidiano em contexto pessoal, profissional, social e familiar.

Como consequência da pandemia, tem vindo a aumentar exponencialmente o consumo de substâncias, a dependência face à internet e às redes sociais. Para além dos seus efeitos nocivos para a saúde mental, o prolongamento do tempo de confinamento conduziu a uma diminuição da atividade física, a uma mudança nos hábitos alimentares e a uma perturbação do ritmo circadiano e outras perturbações metabólicas.

Assim, de modo a promover resiliência e reduzir o risco de sofrimento psicológico e psicopatológico, é importante que as pessoas tentem estabelecer uma rotina saudável ao proporcionar momentos de autoconhecimento e reflexão, gerir o consumo dos meios de comunicação, assegurar a atividade física diária, promover uma boa função reguladora do sono e procurar fortalecer as relações interpessoais (mesmo que à distância) prevenindo o isolamento, com o recurso às chamadas telefónicas ou videoconferências, com pessoas que possam possibilitar um bem-estar coletivo.

Creio, contudo, que dificilmente conseguiremos levantar um país e a sua economia com uma taxa considerável da população depressiva, ansiosa e com stresse patológico. Globalmente, esta pandemia mostra a necessidade de adotar medidas universais que promovam a saúde mental face ao esperado aumento dramático do impacto psicológico nas populações em cenários epidémicos.

Patrick Roque Teixeira